"Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda!| E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,| Como o soldado que rasgou a farda| No desespero do último momento." nos transmite o Poeta Raquítico na segunda estrofe de seu poema: "O Martírio do Artista." Augusto dos Anjos, mesmo com toda a sua genialidade na construção de versos expressivos, perfeitos e metrificados, sabia o quanto a mesma lhe custava esforço e tormenta, pela qual todo artista passa nos seus percursos criativos. Tendo vivido em tempos literários marcados pelo Parnasianismo, escola a qual cultivava a perfeição estética em detrimento da crítica, do sentimentalismo e de outras funções que caracterizaram a poesia em períodos mais remotos, como o Barroco e o Romantismo, o trabalho de muitos parnasianos restringiam-se à verborragia.
Entretanto, mesmo com influência parnasiana, Augusto não mostrou-se avesso aos ideais desta corrente. Contudo, suas modelações poéticas, além de rimas ricas e raras, fundiam-se ao místico, ao sobrenatural e ao horrível, ideias que permeavam as palavras do Raquítico e compunham a atmosfera densa de seus versos. Tal recorrência ao espiritual e ao macabro, vinha como herança do Simbolismo, estética literária que também influenciou Augusto. A junção da beleza cultivada pelos parnasianos ao misticismo dos simbolistas e a um vocabulário grotesco, caracterizado por termos como "escarro", renderam críticas negativas ao poeta. Mal compreendida pelos intelectuais da literatura, a linguagem de dos Anjos, tida como suja, era uma metáfora para a decadência social do Brasil, bem como para as angústias existenciais inerentes à natureza humana. A morte prematura de dos Anjos, em 1914, impossibilitou o arquiteto misto de desfrutar do sucesso que iria permear a sua obra, reunida em um único livro deixado pelo poeta, intitulado "Eu".
Gerada pelos vários contextos históricos desfrutados pela humanidade, a Sintaxe Poética metamorfoseava-se conforme o estado político, social e cultural atravessado pela sociedade, os quais se refletiam no poeta como ser individual. Como exemplo, tem-se as divergências filosóficas e artísticas que compunham o século XIX. De um lado, o Positivismo fazia proliferar a crença no progresso através da ciência e do antropocentrismo, elementos presentes na literatura Naturalista, por meio do Determinismo. De outro, um conjunto de poetas, conhecidos como "Poetas Malditos", sentiam-se aflitos pelo materialismo alimentado através das fumaças e barulhos de locomotivas que representavam o avanço dos ricos, minorias do cenário paradoxal da Europa da Revolução Industrial. De fato, havia um progresso, mas este era fruto da exploração de uma maioria trabalhadora, desvalorizada e miserável. Assim, figuras ilustres do pessimismo em frente ao pensamento positivista, conhecido como "Decadentismo", a exemplo do francês Charles Baudelaire, assumiam uma postura voltada para o aprofundamento das questões espirituais e emocionais em sua poética. O homem não se resumia à carne.
Assim como Augusto dos Anjos viria a fazer mais à frente, no início do século XX, em meados do século XIX, Baudelaire trabalhou em sua obra mais conhecida, "As Flores do Mal", uma poesia marcada pelo contraste da sociedade francesa. Através de um vocabulário formal, métrico, porém recheado de temáticas que remetiam ao satanismo e ao horror, o lado negro de Paris era dissecado. A figura de Satã permeava os versos como símbolo da decadência e das revoltas humanas, todavia de sua capacidade de suportar as dificuldades a cada dia e tornar-se mais forte, como se pode observar no poema "Ao Leitor": "Do mal no travesseiro é Satã Trismegisto| Que embala lentamente a nossa alma encantada." Tal espécie de oposição aos valores fúteis do mundo progressista, mostrou-se como uma "previsão" das penúrias que os avanços tecnológicos e científicos iriam significar para a vida de milhões de famílias afetadas pelas desgraças das duas grandes Guerras Mundiais do futuro século XX.
Mesmo que Baudelaire tenha influenciado a Arte pela Arte, seus versos não se resumem a esta. Assim como o Poeta Raquítico, o "Poeta da Modernidade", como Charles foi denominado pelos críticos, utilizou-se até mesmo do erotismo abundante em "As Flores do Mal" para expor a dualidade dos valores da matéria, mesclados aos enigmas do espírito, como é possível observar no trecho de seu poema "Hino à Beleza": "Venhas tu dos infernos, do céu, pouco importa,| Beleza! Monstro enorme, espantoso, inocente!| Se o teu olho, o sorriso, o pé, me abrem a porta| De um infinito que amo e nunca fui ciente?" Viria a literatura ao estilo baudelaireano inspirar a valorização do feio, do disforme e da crítica à burguesia, presentes em vanguardas europeias como o Expressionismo, o Dadaísmo e o Surrealismo.
Assim como os Poetas Malditos, os artistas do mundo contemporâneo e pós-guerra teriam como alvo a necessidade de utilizar a poesia para discutir os valores sociais, íntimos e humanitários do indivíduo, como também para denunciar as desigualdades e as injustiças as quais as elites insistiam em manter ocultas. Aos poucos, no Brasil, o Modernismo viria em busca da liberdade na arquitetura poética, a poesia abandonava aos poucos as suas formalidades, para expandir-se a estratégias que fariam dela um veículo de ironia, humor e retrato da realidade brasileira. Um dos mais memoráveis protagonistas da Primeira Geração Modernista, Oswald de Andrade, "presentearia" a escola parnasiana com várias críticas em seu "Manifesto Pau-Brasil". Neste, o poeta escreveu: "Só não me inventou uma máquina de fazer versos - já havia o poeta parnasiano". Mais tarde, na metade do século XX, em meados dos anos 40, os ideais do Parnasianismo viriam a ser resgatados por autores como João Cabral de Melo Neto, conhecido como Poeta Engenheiro, pois, assim como Olavo Bilac era o ouriver que moldava, com o suor corporal e perfeccionista, o seu trabalho como poeta, João Cabral era o engenheiro que escolhia cuidadosamente a palavra correta e adequada para transmitir o necessário por meio de seu esforço.
Diante destas e de outras alternâncias que auxiliaram na formação da importância representada pela literatura como registro histórico, é possível concluir que não há uma fórmula adequada para se fazer poesia, visto que, ao comparar o trabalho do poeta com o do arquiteto, questões como a originalidade e o liberalismo criativo tornam-se essência na criação de projetos finais divergentes um dos outros e que englobam diversos gostos por parte dos leitores, aqueles que realmente tornam o artista memorável e o ajudam na formação de sua identidade. Bem ou mal compreendido, o arquiteto utiliza-se das críticas e dos elogios como seus materiais de construção profissional, tudo faz parte de sua trajetória. Não apenas a literatura, mas a arte em geral, funciona como um berço de criação livre e acessível a todos, possibilitada pela Modernidade. Formal ou informal, perfeita ou imperfeita, culta ou coloquial, o poema existe e está vivo no contexto presente, disponível para resguardar as inquietações humanas: seus gostos, afligimentos, idealizações, fantasias, sonhos, contestações, calmarias, exageros e fugacidades, consoante declara o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: "A arte existe para que a realidade não nos destrua."

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