"À medida que eu ia lendo, considerava minha própria situação e meus sentimentos. Achava-me semelhante e, ao mesmo tempo, estranhamente diferente dos seres sobre quem eu lia e de cuja conversa eu era ouvinte. Compartilhava seus sentimentos e os entendia em parte, mas meu cérebro era imaturo; eu não dependia de ninguém nem estava relacionado com ninguém. Meu caminho para partir estava livre, e ninguém havia para lamentar a minha morte. Eu era horroroso e gigantesco. Que significava aquilo? Quem era eu? O que era eu? Donde vinha eu? Qual era o meu destino? Era constantemente assaltado por essas perguntas, mas não conseguia respondê-las." (Frankenstein - Mary Shelley)
"Mas é sempre assim; o anjo decaído transforma-se num demônio. No entanto, até o inimigo de Deus e do homem tem companheiros na sua solidão; eu estou só." (Frankenstein - Mary Shelley)
terça-feira, 30 de junho de 2015
[002] Citação Literária: Padre Fábio de Melo
"Queria simplicidades. Coisa pouca. Colo de mãe, olhar atento a me fitar, como se nesse exercício simples de amor pretendesse me saber de cor. Feições decoradas de tão olhadas, olhar de proximidade e vagareza, amor de entranhas e prolongadas carícias. Queria encosto de ombros aquecidos, mãos de mulher sobre minhas faces adormecidas, voz serena a confidenciar-me segredos, propondo posturas, ensinando lisuras, registrando caráter." (Padre Fábio de Melo - Orfandades)
Opinião - O Enigma de Capitu
"Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca." (Dom Casmurro)
Teria a clássica personagem de Machado de Assis, traído seu marido Bentinho, ou seria isso mera ilusão da mente do protagonista? Opiniões diversas não faltam.
Capitu, de fato, é uma personagem complexa e enigmática. Os "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", descritos por Bentinho, dão à moça um ar de enganadora e lasciva. A aproximação entre os três principais da trama, Capitu, Escobar e Bentinho, torna ainda mais embaraçoso desvendar se a moça cometeu ou não o adultério.
O romance é narrado por Bentinho em sua fase adulta. O personagem, ainda por cima, exerce a profissão de advogado, fato que além de poder levar o leitor a navegar somente na visão de mundo de Bento, também desencadeia a dedução de que Bento pode ter "corrompido" a história, moldando-a aos seus próprios olhos.
Durante a narrativa, Bento apresenta-nos vários acontecimentos suspeitos e ousados em relação à esposa, Capitu, e ao amigo, Escobar. O modo como a mulher vestia-se nos eventos, sempre deixando à mostra os braços, de forma sensual, a misteriosa visita de Escobar à sua casa, onde teria ficado sozinho com Capitu e o surgimento da esposa grávida, após esse acontecimento. A cisma de Bentinho para com os traços de seu filho, extremamente semelhantes aos traços do amigo, torna mais possível ao leitor chegar à conclusão de que sim, Capitu cometeu o adultério. Apesar do paradoxo na condição do protagonista ser extremamente teimoso (por isso o apelido de "Casmurro") e poder ter deixado sua imaginação fluir demasiadamente, levando-o a desconfiar da esposa e do filho, a jovem Capitu, desde os primeiros capítulos da trama, não nos engana com seu gênio forte e personalidade inquietante.
Pré-Modernismo - A Inferioridade Presente em Augusto dos Anjos
"Ah! Se me ouvisses falando!
(E eu sei que às dores resistes)
Dir-te-ia coisas tão tristes
Que acabarias chorando."
(Canto Íntimo)
Comumente chamado de "poeta raquítico" pela sociedade de sua época, a aparência excêntrica, presente no poeta Augusto dos Anjos, não conseguiu prejudicar, muito menos deixar transparecer seu evidente talento poético. Ele mesmo descrevia-se como uma "sombra, vinda de outras eras, do cosmopolitismo das moneras", tudo isso para expressar os seus sentimentos dilacerados e dons desprezados por um mundo baseado em aparências.
Porém o caso de Augusto dos Anjos não é uma pedra rara na história da humanidade. Atualmente, em pleno século XXI, os "poderosos" contemporâneos ainda sentem-se prazerosos em estabelecer modelos físicos e comportamentais, à espera de que as massas mais excluídas e descartadas pela elite, venham a escravizarem-se cada vez mais em uma ideia de beleza utópica e totalmente contraditória para com sua realidade.
Infelizmente, os que mais acabam sofrendo com as desilusões de uma mídia idealista são os jovens da sociedade atual. São inúmeros os casos de talentos desperdiçados e passados despercebidos, muitas vezes pelo ser portador de tais dons, não possuir o corpo e o psicológico perfeito, capaz de "sugar"para si as atenções do público. Modelos inexistentes com falsas ideias de sabedoria são louvados pelas aparências, enquanto que uma multidão de grandes mestres incompreendidos é profundamente deixada de lado, principalmente pelas instituições escolares, onde a palavra "inteligência" é presa em um conjunto de mentes alienadas, pelas quais é cruelmente molestada. Um mero fingidor com as melhores "máscaras da vida" é visto como "gênio", enquanto que o verdadeiro entendedor é esquecido nos cantos, muitas vezes tendo que aturar denominações chulas como "louco" e "lerdo", acabando por ser condenado a uma injusta exclusão social.
Esses e outros elementos dão origem à doença de nossa época: a depressão, que tem como suas cônjuges favoritas o complexo de inferioridade e a baixa auto estima, que prendem o indivíduo em uma espécie de teia de aranha sem escapatória, onde o predador aracnídeo é o conceito de "educação" da maioria. Nestas e outras verdadeiras "câmaras de gás" das capacidades humanas, os gênios cometem suicídio, sendo esta última palavra posta em seus mais possíveis sentidos.
terça-feira, 23 de junho de 2015
O Amor e os Românticos
O que era o Amor, no Período do Romantismo?
O amor, para os poetas românticos, era como uma moeda dourada, valiosa, que apresentava duas faces: a face boa, apresentava uma imagem de mulher idealizada, tão imaginada pelos poetas deste período. Este sentimento, de paixão e fugacidade, acabava por fazer brotar na alma, as mais delicadas sensações de sacrifício e ilusão, causadas pela busca de um sentimento perfeito, exuberante e sagrado, tudo isso para abafar as desilusões, doenças e judiações da vida real, que tanto sufocavam os poetas românticos. A face má desta delicada moeda, trazia aos corações dos poetas, o esquecimento, a rejeição e principalmente a dúvida, causada pela inconformidade em perder a mulher amada, saber que a imagem, tão idealizada do ser que amam, nunca poderá ser tocada, ou em não poder tê-la perto de si, para aliviar suas angústias e concretizar seus desejos.
Tais desaventuras, acabavam por fazer os poetas deste período, buscarem refúgio nas poesias, nas bebedeiras que cercavam as tabernas da época, ou, mais radicalmente, na morte, através do suicídio. Em" Os Sofrimentos do Jovem Werther", obra de Goethe que marcou o Romantismo na Alemanha, presenciamos todas as sensações e infelicidades do protagonista, Werther, rapaz que vê sua vida tornar-se uma chaga completa ao conhecer Carlota, menina que tanto é exaltada e desejada por ele ao longo do livro, mas que não o amava, por estar noiva de outro homem. Diante do amor não correspondido, os sofrimentos de Werther atingem o seu ápice, até o rapaz não mais aguentar e recorrer ao suicídio. No Romantismo, amor e morte andavam de mãos dadas, e quanto maior fosse o sofrimento, mais bela seria a poesia.
Não obstante, se para os poetas da Geração Byroniana e Indianista, a mulher era um ser intocável, uma musa sagrada, para os poetas da Geração Condoreira, ela vinha de forma carnal, realista, erótica e acessível. Para os escritores da terceira geração, o amor não era algo tão impossível e distante. Claro que não deixava de ter seu lado sombrio, porém, ele poderia ser vivenciado e de forma mais próxima da realidade.
Se por um lado, ao lermos as obras dos autores deste período, muitas vezes, cheguemos a nos identificar, relacionando o sofrimento deles ao nosso próprio, ou a nos deixar sermos levados e tocados pela beleza e tristeza de sua lira, das obras dos românticos, podemos absorver as mais importantes lições a respeito do amor: as suas desavenças, idas e vindas, desafios e prazeres, que, dependendo da força psicológica da pessoa que o vivencia, pode acabar de forma plena ou trágica. Tais situações, acabam por ajudar a levar os leitores a uma melhor reflexão a respeito da vida e seus valores, pois até mesmo o suicídio, muitas vezes é vão, não sendo a morte amiga de ninguém. Bem como dizia Lord Byron: "Basta! Sabemos nós que o pranto é vão,/Que a morte, à nossa dor, não dá atenção./Isso fará esquecer-nos de prantear?/ Ou que choremos menos fará então?"
"Eis o estertor de morte,/Eis o martírio eterno./Eis o ranger dos dentes,/Eis o penar do inferno." (Junqueira Freire)
O amor, para os poetas românticos, era como uma moeda dourada, valiosa, que apresentava duas faces: a face boa, apresentava uma imagem de mulher idealizada, tão imaginada pelos poetas deste período. Este sentimento, de paixão e fugacidade, acabava por fazer brotar na alma, as mais delicadas sensações de sacrifício e ilusão, causadas pela busca de um sentimento perfeito, exuberante e sagrado, tudo isso para abafar as desilusões, doenças e judiações da vida real, que tanto sufocavam os poetas românticos. A face má desta delicada moeda, trazia aos corações dos poetas, o esquecimento, a rejeição e principalmente a dúvida, causada pela inconformidade em perder a mulher amada, saber que a imagem, tão idealizada do ser que amam, nunca poderá ser tocada, ou em não poder tê-la perto de si, para aliviar suas angústias e concretizar seus desejos.
Tais desaventuras, acabavam por fazer os poetas deste período, buscarem refúgio nas poesias, nas bebedeiras que cercavam as tabernas da época, ou, mais radicalmente, na morte, através do suicídio. Em" Os Sofrimentos do Jovem Werther", obra de Goethe que marcou o Romantismo na Alemanha, presenciamos todas as sensações e infelicidades do protagonista, Werther, rapaz que vê sua vida tornar-se uma chaga completa ao conhecer Carlota, menina que tanto é exaltada e desejada por ele ao longo do livro, mas que não o amava, por estar noiva de outro homem. Diante do amor não correspondido, os sofrimentos de Werther atingem o seu ápice, até o rapaz não mais aguentar e recorrer ao suicídio. No Romantismo, amor e morte andavam de mãos dadas, e quanto maior fosse o sofrimento, mais bela seria a poesia.
Não obstante, se para os poetas da Geração Byroniana e Indianista, a mulher era um ser intocável, uma musa sagrada, para os poetas da Geração Condoreira, ela vinha de forma carnal, realista, erótica e acessível. Para os escritores da terceira geração, o amor não era algo tão impossível e distante. Claro que não deixava de ter seu lado sombrio, porém, ele poderia ser vivenciado e de forma mais próxima da realidade.
Se por um lado, ao lermos as obras dos autores deste período, muitas vezes, cheguemos a nos identificar, relacionando o sofrimento deles ao nosso próprio, ou a nos deixar sermos levados e tocados pela beleza e tristeza de sua lira, das obras dos românticos, podemos absorver as mais importantes lições a respeito do amor: as suas desavenças, idas e vindas, desafios e prazeres, que, dependendo da força psicológica da pessoa que o vivencia, pode acabar de forma plena ou trágica. Tais situações, acabam por ajudar a levar os leitores a uma melhor reflexão a respeito da vida e seus valores, pois até mesmo o suicídio, muitas vezes é vão, não sendo a morte amiga de ninguém. Bem como dizia Lord Byron: "Basta! Sabemos nós que o pranto é vão,/Que a morte, à nossa dor, não dá atenção./Isso fará esquecer-nos de prantear?/ Ou que choremos menos fará então?"
"Eis o estertor de morte,/Eis o martírio eterno./Eis o ranger dos dentes,/Eis o penar do inferno." (Junqueira Freire)
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