Procuram-lhe para pedir favores, obter vantagens, encher-lhe com falsos elogios e visões ilusórias... mas no fundo, não estão preparados, ou simplesmente estão desinteressados em lhe ouvir de verdade. O seu amor está distante. É indiferente, inexistente. Precioso demais para você. Transcendental demais para a sua compreensão. Demasiado valoroso e perigoso para a sua natureza imundinha.
Os anos se passam, a vida adulta e independente revela-se perigosa, assustadora e solitária, com você sem a mínima ideia a respeito do que fazer. Até que descobre não ser parte desse mundo, não querer nada dele, estar alheia a tudo. Sente piedade de si mesma e dos outros apenas em alguns casos. As longas e belas tranças de Rapunzel são cortadas e você cai na floresta de espinhos. Tudo se torna escuro, afinal, eu estou cega e, paradoxalmente, muito mais observadora.
"A consciência nos torna covardes": bem disse Shakespeare. Quando se cresce em um mundo pequeno, cercada de mentes moralistas e constantemente mimada e desinformada, torna-se chocante conhecer a realidade de súbito, a sua pequenez diante do sistema. O grito de "simplesmente não posso" parece vitimista, então ele permanece como um sussurro por entre as entranhas. Escondido. Guardado.
Talvez, no final, tudo seja nada mesmo.



