sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ponderação


Procuram-lhe para pedir favores, obter vantagens, encher-lhe com falsos elogios e visões ilusórias... mas no fundo, não estão preparados, ou simplesmente estão desinteressados em lhe ouvir de verdade. O seu amor está distante. É indiferente, inexistente. Precioso demais para você. Transcendental demais para a sua compreensão. Demasiado valoroso e perigoso para a sua natureza imundinha. 

Os anos se passam, a vida adulta e independente revela-se perigosa, assustadora e solitária, com você sem a mínima ideia a respeito do que fazer. Até que descobre não ser parte desse mundo, não querer nada dele, estar alheia a tudo. Sente piedade de si mesma e dos outros apenas em alguns casos. As longas e belas tranças de Rapunzel são cortadas e você cai na floresta de espinhos. Tudo se torna escuro, afinal, eu estou cega e, paradoxalmente, muito mais observadora.

"A consciência nos torna covardes": bem disse Shakespeare. Quando se cresce em um mundo pequeno, cercada de mentes moralistas e constantemente mimada e desinformada, torna-se chocante conhecer a realidade de súbito, a sua pequenez diante do sistema. O grito de "simplesmente não posso" parece vitimista, então ele permanece como um sussurro por entre as entranhas. Escondido. Guardado.

Talvez, no final, tudo seja nada mesmo.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Filme - Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014) / Opinião

                             


A produção iraniana de Ana Lily Amirpour conduz o público a um melancólico passeio pelo universo preto e branco de Bad City (Cidade do Mal), uma terra sórdida e subjugada pela criminalidade, onde o romance entre uma misteriosa vampira e um infeliz mortal, rompe em meio ao caos. Os encontros entre ambas as personagens constroem-se em cenas lentas e delicadas, nas quais se concebe um paradoxo entre a cândida relação dos amantes e a malícia dos demais moradores da região.

A atmosfera amorosa entre Arash (Arash Marandi) e a Garota (Sheila Vand) evocam uma poetricidade e sutileza dignas de Laura e Carmilla, personagens do romance "Carmilla", escrito pelo irlandês Sheridan Le Fanu. Dessa forma, o filme resgata a aparentemente esquecida imagem do Vampiro como uma criatura maligna, reclusa em sua própria escuridão, porém sedutora e dotada de romantismo, dentre outros elementos que a tornam atraente.  


Assim como Laura sente-se atraída por Carmilla e não compreende por completo o que a mesma representa, Arash não chega a desvelar as profundezas da singularidade de sua amada. Semelhante ao simbolismo de revolta contra o patriarcado trazido por Carmilla no século XIX, a protagonista da película inicia e termina o longa explicitando o confronto da mulher, distante do seu esteriótipo de "frágil", perante o homem. Uma vez que a mesma reivindica o seu lugar de atuação na sociedade, demonstra também ser  forte e perigosa, capaz de cultivar em seu íntimo, a delicadeza e a monstruosidade. 

A sensualidade também é um elemento recorrente na história. Mas não se engane, a produção não busca invadir o olhar do telespectador com cenas de vulgaridade que nada acrescentam à trama, como acontece em muitos outros filmes de terror. "Garota Sombria Caminha pela Noite" é uma representação sutil e densamente elegante a respeito dos mistérios femininos e vampirescos e do papel da criatura, na pele de uma moça, como representação da busca pelo respeito e liberdade em meio à uma maioria violenta e entregue à perdição. Um certo grito no escuro por vingança, acompanhado pela descoberta do amor inocente.