"It's Alive!"
MARY SHELLEY
A BIOGRAFIA
Mary Godwin Shelley, mais conhecida como Mary Shelley, veio ao mundo na cidade de Londres, Inglaterra, em 30 de agosto de 1797. Seus pais eram William Goldwin, filósofo, romancista e jornalista, e Mary Wollstonecraft, filósofa feminista e autora da obra "Defesa dos Direitos das Mulheres" e uma das responsáveis pelo incentivo e fortalecimento da luta pelos direitos femininos.
Shelley perdeu a mãe aos 10 anos de idade, porém mãe e filha mantiveram suas almas interligadas, uma vez que a pequena sempre lia perto do túmulo de sua falecida genitora, além de ter devorado todos os livros da mesma. Mary e seus irmãos Charles e Claire Cairmont foram criados pelo pai e receberam uma educação fora dos padrões sociais da época.
DO ENCONTRO COM BYRON, NASCE O HORROR
Em 1813, Mary tinha apenas 16 anos, mas já havia entregado seu coração ao poeta romântico Percy Bysshe Shelley. Apesar de ter Percy como um de seus seguidores, William não aceitou a aproximação entre ele e sua filha. Contudo, mesmo sendo um homem casado e mais velho que Mary, Percy fugiu com sua amada para a França, abandonando sua primeira esposa, que estava grávida. Esta viria a cometer suicídio, um tempo depois.
Com o passar dos anos, Mary prosseguiu com seus feitos literários e engravidou do primeiro filho. No verão de 1816, o casal estabeleceu-se no castelo do poeta inglês Lord Byron, em Genebra, Suíça. Também ficaram ao lado do trio, a meia irmã de Mary, Claire Clairmont e o escritor John Polidori.
Em meio à ambientação densa fornecida pelas paredes da residência byroniana, das janelas que se deixavam invadir pelas brisas melancólicas de verão e do borbulhar excêntrico de várias mentes artísticas reunidas, Byron lançou um desafio aos colegas: escrever a história de terror mais tenebrosa que pudesse, tendo sido "Frankenstein" o vitorioso fruto desse concurso. A história originou-se de uma visão tida por Shelley, na qual um estudante dava vida a uma criatura.
O TERROR GANHA ASPECTOS REAIS
Após o sucesso do romance, Mary seguiu sua trajetória como escritora. Todavia, sua família parecia ser perseguida e identificar-se cada vez mais com as danações de dor e morte geradas pelo Doutor Frankenstein. Dos quatro filhos da autora com Percy Shelley, apenas um, Percy Florence, sobreviveu à primeira infância. Em 1822, aos 30 anos, Percy Shelley sofreu um grave acidente de barco e morreu afogado. Mary, por sua vez, viu-se atormentada por um aborto e decidiu voltar para a Inglaterra com seu único filho.
Viveu por mais trinta anos e escreveu outras obras, como "Mathilda", "Lodore", "Valperga" e "Perkin Warbeck", porém nenhuma alcançou o reconhecimento de "Frankenstein", escrito por Mary quando a mesma tinha apenas 19 anos e considerada a primeira obra de ficção científica da história. Outra obra de Mary, chamada "O Último Homem", também foi uma importante influência para a ficção, ao retratar o apocalipse causado por uma praga.
Mary Shelley veio a morrer no ano de 1851, aos 53 anos. Seu médico suspeitava ter sido um tumor cerebral a causa do falecimento.
FRANKENSTEIN OU O MODERNO PROMETEU
"Frankenstein ou O Moderno Prometeu" é um romance de terror gótico, inspirado pelo movimento Romântico. É a maior obra da escritora inglesa Mary Shelley e também considerado o primeiro trabalho literário de ficção científica da história. Foi escrito entre 1816 e 1817, sendo primeiramente publicado em 1818.
A obra pode ser interpretada como uma reação aos movimentos cientificistas e racionalistas do século XIX, a exemplo do Positivismo. Victor Frankenstein é uma simbologia dos sacrifícios feitos pelo homem em nome da sua obsessão doentia pela ciência, que muitas vezes causa o afastamento do mesmo dos valores morais para com o próximo. Sendo assim, Shelley demonstra a dualidade do progresso humano. Frankenstein pode ser visto como um homem alienado pelo materialismo, enquanto que a sua Criatura, mesmo com todos os defeitos físicos e psicológicos, estes causados pela repressão social, representa o ser humano em estado de florescimento, sabedoria e, ao mesmo tempo, decadência, por ser contemporâneo a homens que engrandeciam as aparências em detrimento das virtudes e dos valores morais.
CARACTERÍSTICAS DE ROMANCE GÓTICO PRESENTES EM "FRANKENSTEIN":
- Donzela em perigo (Elizabeth, noiva de Victor, nas mãos do Monstro);
- Mistura entre horror, ficção científica e fantasia;
- Presença de personagens assustadores (a Criatura) e que desafiam a lógica, a razão e outros valores sociais do século XIX, trazidos com o racionalismo;
- Ambientação sombria (a exemplo de Victor em seu ambiente de criação do "Demônio").
CARACTERÍSTICAS ROMÂNTICAS NA OBRA:
- Pessimismo diante da vida;
- Temáticas como a morte, o sobrenatural;
- Satanismo (por meio da rebelião do Monstro, tanto através de suas ações de ódio contra seu Criador, como por meio de seu isolamento dos valores fúteis da sociedade (como a beleza estética) e das contestações que o Demônio faz da mesma. Também através da clara crítica aos conceitos religiosos, através do confronto entre Criador e Criatura.
TEMAS TRATADOS NA OBRA
""... e ninguém havia para lamentar a minha morte. Eu era horroroso e gigantesco."
O preconceito e a intolerância social para com as diferenças, pois as maiorias mostram-se incapazes de desprezar o exterior do indivíduo. A violência sofria pelo Monstro de Victor, diante do abandono e do desprezo vindo de seu próprio Criador, leva a uma marginalização do mesmo. A ambição em querer assemelhar-se à Deus está presente em Frankenstein, bem como o desengano deste ao perceber que criara um ser imperfeito e ao qual o mesmo maleficiou. A partir disso, pode ser feita uma analogia entre a desilusão de Victor e a desilusão do homem do fim do século XIX para o início do século XX, pois todos os investimentos tecnológicos projetados pela humanidade e a crença da mesma de que a ciência viria a resolver os problemas do mundo, engendraram uma completa fase de descrença e de pessimismo para com o destino do mundo, uma vez que a inteligência humana foi utilizada a serviço da criação de armas de destruição em massa na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.
CURIOSIDADES
- O romance completou 200 anos em 2 de junho de 2016;
- Mesmo com a associação feita pela cultura popular, de Frankenstein como nome da criação de Victor, esta não recebe um nome. Shelley usa termos como "monstro", "demônio", "criatura... para referir-se à mesma.
- Frankenstein era o nome de uma antiga família da Silésia, região dividida entre a Alemanha, a Polônia e a República Checa. Durante uma de suas viagens com Percy, Mary conheceu um dos membros desta família e utilizou-o em sua obra.
- Mary Shelley venceu paradigmas ao publicar a terceira edição de "Frankenstein" em plena revolução de 30, na Europa, época na qual o pensamento patriarcal dominava a sociedade. Ademais, a autora carregou consigo o coração de seu falecido marido por 30 anos, até vir também a óbito, no ano de 1851. O órgão foi encontrado em uma gaveta de mesa um ano depois, envolto em uma cópia dos poemas finais dele.
INTERTEXTUALIDADE - FRANKENSTEIN E PROMETEU NO PARAÍSO PERDIDO DE JOHN MILTON
Logo nas primeiras páginas de "Frankenstein", é possível perceber a intertextualidade que será feita ao longo da obra, entre a Criatura de Victor Frankenstein e a personalidade das personagens Lúcifer e Adão, da obra "Paraíso Perdido", do poeta inglês John Milton.
John Milton nasceu no ano de 1608, na Inglaterra do século XVII e destacou-se por sua índole revolucionária para a época. Puritano, antimonarquista e defensor da República, escreveu vários artigos defendendo o direito ao divórcio. Entre suas influências literárias, estavam autores clássicos como Dante, Petrarca e Tasso. Trabalhou durante alguns anos para o político Oliver Cromwell e, como seu trabalho exigia muita leitura, acabou lhe trazendo sérios problemas de visão e levou-o à cegueira total, em 1652. Após a Restauração da monarquia na Inglaterra, John Milton vai preso e em sua cela, começa a dedicar-se à poesia. Sua cegueira não o impediu de ditar para suas filhas o poema épico "Paraíso Perdido", escrito em dez cantos e com versos brancos. O poema tornou-se um dos maiores clássicos da literatura mundial e rendeu a Milton o título de maior poeta épico e lírico inglês.
A história de "Paraíso Perdido" é de inspiração bíblica e narra os conflitos causados pela rebelião do anjo Lúcifer e de parte de outras criaturas celestiais contra Deus. Ademais, o poema recria a tragédia de Adão e Eva, enganados pelo Demônio e expulsos do Jardim do Éden devido à sua desobediência para com o Criador. Dessa forma, o "Paraíso" presente no título da obra pode ser interpretado como se referindo tanto a uma questão espiritual, uma vez que Lúcifer e seus anjos entraram em completo estado de decadência após a queda, além do sofrimento e perdição aos quais Adão e Eva ficaram destinados, como também a uma questão literal, pois assim como o casal de humanos perdeu o seu lar de paz e serenidade, Lúcifer perdeu a sua Eterna presença ao lado de Deus.
"É melhor reinar no Inferno que servir no Paraíso."
Um dos principais marcos da obra foi o próprio Satã, pois o mesmo foi apresentado como uma personagem com características humanas, presentes em seu sentimento de revolta, sofrimento e até mesmo por um afeto momentâneo em relação a Adão e Eva. Sendo assim, o anjo caído revela-se mais humano que o casal. Embora tenha sido um homem muito religioso, alguns críticos consideram que Milton acabou por construir a personagem diabólica como o herói da epopeia.
Paraíso Perdido influenciou muitos autores românticos e dentre eles estava Mary Shelley. Ao desvendar a primeira página de "Frankenstein", o leitor depara-se com um trecho da obra de Milton, em que Adão, já em estado de miséria, faz um clamor à Deus:
"Pedi eu, ó meu criador, que do barro
Me fizesses homem? Pedi para que
Me arrancasses das trevas?"
(O PARAÍSO PERDIDO, Canto X)
O Monstro originado por Victor assemelha-se tanto a Adão, por se tratar do filho abandonado e abraçado pela desgraça, como também a Lúcifer, por inicialmente ser uma criatura pura, inocente e bondosa, mas que por culpa da incompreensão e exclusão por parte da sociedade, torna-se um ser ressentido, solitário e vingativo. Assim como as personagens de Milton, o Monstro também perde o seu Paraíso, que seria a sua convivência pacífica para com Victor e o resto da humanidade. No caso da Criatura, ela perde a chance de ter todos esses deleites.
Nos seguintes trechos de "Frankenstein", pode-se perceber a identificação da Criatura para com Adão e Lúcifer, já que a mesma, durante o seu período longe de Victor, toma conhecimento da obra de Milton:
"Às vezes, permitia que meus pensamentos, desligados da razão, divagassem pelos campos do Paraíso, e ousava imaginar criaturas agradáveis e encantadoras partilhando dos meus sentimentos e reconfortando a minha tristeza. [...] Nenhuma Eva aliviaria minhas tristezas nem partilharia os meus pensamentos. Eu estava só. Eu me lembrava da súplica de Adão ao seu Criador. Mas, onde estava o meu? Ele me abandonara e, no meu coração amargurado, eu o amaldiçoava."
"Mas é sempre assim; o anjo decaído transforma-se num demônio. No entanto, até o inimigo de Deus e do homem tem companheiros na sua solidão; eu estou só."

Além disso, o livro de Shelley também estabelece uma relação com a Mitologia Grega. O título completo da obra é "Frankenstein ou O Moderno Prometeu". Segundo o antigo mito contado pelos gregos, Prometeu era um Titã que tendo roubado o fogo de Zeus e transformado os seres humanos em animais racionais, foi o responsável pela criação do homem. Por sua vez, Zeus aborreceu-se com o titã e castigou, acorrentando-o nas montanhas do Cáucaso. Pode-se estabelecer uma relação entre o doutor Victor e Prometeu, visto que Frankenstein utiliza-se do conhecimento racional e da inteligência (o fogo dos deuses) para criar um ser sábio e desafiar as convenções morais, segundo as quais cabe somente a um Ser Superior a criação da vida. O conflito entre Criador e Criatura, a busca pelo conhecimento e pela liberdade e a decadência pessoal, são elementos presentes em Prometeu, Lúcifer e Frankenstein. Estes três são, juntos, os estereótipos de rebeldia contra uma ordem maior, de busca pela própria autonomia e sabedoria que inspira as demais espécies.
A INFLUÊNCIA NA CULTURA POPULAR
Mesmo depois de séculos após sua publicação, o romance de Shelley continua vivo na memória da cultura popular e influencia as mídias, a exemplo do cinema e da televisão.
O MUNDO DE TIM BURTON
O cineasta norte-americano Tim Burton é um dos amantes da história do cientista obcecado por criar vida humana. Conhecido por seu estilo excêntrico e sombrio, algumas de suas produções cinematográficas, como "Edward Mãos de Tesoura", "O Estranho Mundo de Jack" e Frankenweenie", evidenciam a marca de Shelley na criatividade de Burton.
Edward Mãos de Tesoura (1990) - Dos gêneros romance, comédia e fantasia, o filme narra a história de Edward, a criação inacabada de um velho inventor que vem a falecer e deixa seu filho sozinho em uma mansão, tendo apenas tesouras no lugar das mãos. Quando Peg, uma simpática vendedora, encontra Edward sozinho na mansão e resolve levá-lo para sua casa e cuidar dele, o rapaz é vítima dos interesses e do preconceito dos demais habitantes da cidade.
O Estranho Mundo de Jack (1993) - A narração do gênero fantasia narra a vida dos habitantes da Cidade do Halloween", um mundo repleto de membros estranhos e fantasmagóricos. Jack Esqueleto é a principal figura do local, por sua maestria em meter medo durante o Dia das Bruxas. Ao descobrir a Cidade do Natal, Jack torna-se fascinado com as magias da data e resolve transformar-se em uma espécie de Papai Noel. Um dos personagens do filme é Sally, uma boneca feita de trapos, criada pelo Dr. Finkelstein e apaixonada por Jack.
Frankenweenie (2012) - A animação de terror e comédia conta a emocionante história ente um menino chamado Victor e seu cachorro Sparky. Após Sparky ser acidentalmente atropelado e morto, Victor usa a sua paixão pela ciência para desenvolver um método que possa trazer seu cão de volta à vida.
FILMES INSPIRADOS NO LIVRO
Frankenstein (1931) - Apesar de pouco fiel ao livro, a adaptação dos anos 30 é a mais clássica e responsável por criar a imagem do Monstro como se tem hoje: uma criatura verde, com pregos no pescoço e marcas de costura. No filme, o nome do Dr. foi mudado para Henry Frankenstein e a Criatura apenas emite grunhidos, ao contrário do livro, no qual é bastante expressiva. A produção traz Boris Karloff como o Monstro e Colin Clive como Henry.
Frankenstein - Entre Anjos e Demônios (2014) - O filme traz uma visão moderna a respeito do Monstro, que se vê no meio de uma guerra entre anjos e demônios os quais disputam os segredos relacionados à sua imortalidade. Possui Aaron Eckhart como a Criatura.
Frankenstein de Mary Shelley (1994) - Menos conhecida, porém mais fiel à obra, a produção dos anos 90 traz Robert De Niro como o Monstro e Kenneth Branagh como Victor.
MONSTER HIGH
A linha de brinquedos/desenho animado "Monster High" também se inspirou em Shelley para desenvolver uma de suas personagens, Frankie Stein. Na animação, Frankie é uma das criações do Dr. Victor e, portanto, "irmã" do Monstro do livro. Um dos objetivos propostos pelas histórias das bonecas é desconstruir os padrões de beleza vigentes na maioria dos brinquedos destinados às meninas e incentivar a aceitação do indivíduo, apesar de todas as suas diferenças físicas.
GOTHIC - 1986
O filme Gothic, do gênero terror, é uma adaptação do processo criativo de Mary Shelley durante a estadia da mesma e de seu marido Percy Shelley no castelo do inglês Lord Byron, juntamente com sua irmã Claire e o escritor Polidori.
PENNY DREADFUL
A série norte-americana de terror e fantasia, Penny Dreadful, tem como uma de suas personagens o Doutor Frankenstein, interpretado por Harry Treadaway, e sua Criatura, interpretada por Rory Kinnear. Na série, Victor é um homem atormentado pelo remorso de suas criações e a Criatura expressa fortemente seu ódio por ele, embora por vezes revele-se afetuosa.
A FAMÍLIA ADDAMS (1964)
No clássico seriado de Tv norte-americano, a aparência de um dos personagens da excêntrica família, o mordomo Lurch, tem a aparência claramente inspirada na Criatura.
Chegamos ao fim do Post! Muitíssimo obrigada por terem lido até aqui. Até a próxima!!