segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

10 músicas que lembram a Segunda Geração do Romantismo

Garotinhas mortas em plena flor da idade, paixões inalcançáveis ou não correspondidas, anseio pela morte, personagens intensos, doentios e desesperados... foram tantas as características que marcaram o movimento Romântico na Europa, em seu primeiro momento de luto pela queda dos valores medievais e ascensão do mundo burguês, que os jovens do século XIX viram-se dominados pelo "mau do século", o qual se expressava através do tédio e da melancolia.

No Brasil, o Romantismo foi dividido em três gerações. Também conhecida como Byroniana (pela grande influência vinda do poeta inglês Lord Byron) ou Ultrarromântica (pelo forte transbordar dos sentimentos mais íntimos do "eu" lírico), a segunda fase, assim como no continente europeu, destacou-se através do comportamento, da filosofia, da pintura, da literatura, dentre outras áreas, pela atenção direcionada ao lado sombrio da vida, evitado por uma sociedade a basear sua visão de mundo na evolução do racionalismo, por meio da ciência e das teorias positivistas. Em terras tupiniquins, sobressaiu-se no campo poético o brilhante Álvares de Azevedo. Mesmo tendo morrido muito jovem, Álvares nos deixou uma vasta obra, repleta de sonhos, medos, amor transcendente e musas idealizadas, servindo, assim, de símbolo nacional arquetípico de um "filho de Byron": uma vida curta, trágica, mas que parece vencer a morte, por perceber a mesma como uma guia rumo à verdadeira felicidade da alma. A Segunda Geração, em especial, será tratada neste post, por intermédio de exemplificações de sua presença na cultura contemporânea. 




Assim como os jovens ultrarromânticos canalizavam suas emoções na literatura, atualmente, muitos artistas deixam-se conduzir pela musicalidade, que exerce influência na mentalidade de milhares de adolescentes e adultos, como também vai de encontro aos seus anseios e inquietações, nem sempre compreendidos por uma humanidade tão cega pelo materialismo.

10º - "The Art Of Suicide", de Emilie Autumn



"Porque incomodar do incômodo
Apenas por um poema
Ou outra canção triste a cantar
Por que viver uma vida?
Porque viver uma vida?"

Emilie, com todo o seu estilo clássico e teatral, recorda perfeitamente a poesia dramática e sarcástica de Álvares de Azevedo, em relação ao contexto fatalista de sua arte. Para o romântico, o suicídio era uma forma de cessar o sofrimento causado pelo amor e pela desilusão para com o mundo. Uma vez tomado pelos braços da Morte, o final do ser humano não era de um todo trágico. A canção de Autumn, por sua vez, expressa de modo irônico, tal desespero residente em uma mentalidade suicida.

9º - "Romeo's Distress", de Christian Death




"Beije minha mão depois da escuridão
Mão com um beijo, depois da escuridão
Beije minha mão
Beije minha mão
Beije minha mão."

A composição da banda americana Christian Death, traduz elegantemente o cenário de obras como "Noite na Taverna", ao trazer à mente do ouvinte, imagens obscuras e apaixonadas. O próprio nome da música já faz alusão ao personagem Romeu, do inglês William Shakespeare, cujas peças teatrais de caráter trágico, serviram de inspiração para os artistas românticos.

8º - "Marian", de The Sisters of Mercy




"Eu ouço você chamando Marian
Você pode me ouvir te chamando
Salve-me, salve-me, salve-me da sepultura...
Marian"

"Marian" surge como uma representação da mulher amada e perfeita, almejada pelo "eu" lírico, capaz de salvá-lo do mundo da desesperança, ao acolher o seu amor. Tamanha era a sacralização da mulher romântica, que podia ser comparada à figuras angelicais e à Virgem Maria.

7º - "Jasmine and Rose", de Clan Of Xymox



"Ópio e veneno, jasmim e rosa
Sonhos de ambrósia, todo o brilho dos sabores
Isto é sensual, isto é sensual, sensual, sensual."

A Sociedade Epicureia, liderada por Aureliano Lessa, Bernardo Guimarães e Álvares de Azevedo, é lembrada pelas lendas que a cercavam, lendas essas, relacionadas à vida noturna por entre os cemitérios, boemia e orgias. Por sua vez, Lord Byron, a principal inspiração dos jovens estudantes participantes da Sociedade, teve uma vida marcada por polêmicas relacionadas ao incesto e outros costumes excêntricos. A letra de "Jasmine And Rose" evoca de forma perfeita o espírito de luxúria e fugacidade, imaginado e vivido por parte da juventude do século XIX, através das bebedeiras nas tavernas, do uso de drogas e do amor abstrato vivido com a dama perfeita, muitas vezes ilusório, mal sucedido ou interrompido pela morte.

6º - "Even In Death", de Evanescence




"Eu vou estar pra sempre aqui com você, meu amor
As coisas gentis que você me disse
Mesmo na morte nosso amor continua."

Não poderia faltar uma melodia da banda Evanescence, com suas letras depressivas e conturbadas. O amor transcendental, que superava as barreiras carnais e desprendia-se do sofrimento causado pelas mesmas, era uma das principais características do Romantismo. A Morte não poderia separar os amantes, visto que, através dela, eles estariam destinados a viverem juntos, na paz e na pureza do plano espiritual. 

5º - "Death Is Waiting for Your Heart", de Svenia





"Doce donzela nessa noite sem estrelas
Morte está esperando pelo seu coração
Você pode receber o paraíso de um sonho
Que você não merece mais."

Os estudos científicos e medicinais evoluíram durante o século XIX, porém, doenças como a tuberculose ainda causavam a morte precoce de grande parte da população, principalmente a mais pobre, diante de sua vulnerabilidade e exposição às péssimas condições de vida. Como a imagem da garota inocente, delicada e indefesa permeava a imaginação do romântico, em muitas prosas, poesias e pinturas, o falecimento da menina jovem e amada era retratado de forma delicada e terna. A morte parecia espreitar até mesmo os que mal conheceram a vida.

4º - "Rose of Flesh and Blood", de Plastique Noir



"Por que tanto álcool?
Velocidade, pílulas para dormir, eu me pergunto
Eu poderia tornar mais fácil o seu espaço
Mas eu estou com medo
Devo confessar."


A bela composição do Plastique Noir expressa a desilusão amorosa e a distância da figura feminina à qual o poeta era devoto. Perante os desencantos causados pelos sentimentos, o poeta afogava suas emanações trágicas em bebidas, remédios, ou até mesmo no luto eterno.

3º - "Bresso", de Lacrimosa


 "Ainda escuto sua voz a me falar
Ainda sinto seus lábios a me tocar
Ainda brilha a sua luz em mim
Ainda
Ainda
Ainda."

Implorar pela piedade da Morte diante do ser adorado, ou até mesmo por uma segunda chance da alma querida, configura-se como nascente das sensações de solidão e abandono eterno. Dessa forma, o que resta ao "eu" lírico, além de recorrer às palavras certamente desesperançosas para fazer jorrar toda a sua frustração e possibilidade de resistência?

2º - "Helena", de My Chemical Romance




"Chega um momento
Quando toda estrela cai
Trazendo-lhe às lágrimas novamente
Nós somos os muito magoados que você vendeu."

Tanto a letra quanto o vídeo de "Helena", são verdadeiras representações do cenário Byroniano. A ambientação lúgubre, a jovem dama no caixão, o descontentamento do "eu" e a comoção dos que assistem à partida perpétua da jovem e pura criatura.

1º - "My Lost Lenore", de Tristania




"Deixando a vitalidade
Tão serena cria-se minha escuridão
Suplicando ventos de inverno
Ainda que eu parta, eu abraço a ti."

É com muito prazer que reservo a primeira colocação para esta bela homenagem da banda Tristania à personagem sombria e moribunda de Edgar Allan Poe, Lenore. Poe, com seu célebre poema "O Corvo" e vastas prosas repletas de cenários nebulosos e acontecimentos misteriosos, recheados de incógnitas, foi um dos principais e mais influentes nomes do Romantismo. Lenore, uma das personagens de "O Corvo", é a perfeita representação da garota morta na juventude. A letra da música é densa, poética e melancólica, além de expressar toda a inconformação e agonia do homem apaixonado, em busca da presença revivificada de sua amante.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A Sintaxe Poética


"Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda!| E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,| Como o soldado que rasgou a farda| No desespero do último momento." nos transmite o Poeta Raquítico na segunda estrofe de seu poema: "O Martírio do Artista." Augusto dos Anjos, mesmo com toda a sua genialidade na construção de versos expressivos, perfeitos e metrificados, sabia o quanto a mesma lhe custava esforço e tormenta, pela qual todo artista passa nos seus percursos criativos. Tendo vivido em tempos literários marcados pelo Parnasianismo, escola a qual cultivava a perfeição estética em detrimento da crítica, do sentimentalismo e de outras funções que caracterizaram a poesia em períodos mais remotos, como o Barroco e o Romantismo, o trabalho de muitos parnasianos restringiam-se à verborragia. 


Entretanto, mesmo com influência parnasiana, Augusto não mostrou-se avesso aos ideais desta corrente. Contudo, suas modelações poéticas, além de rimas ricas e raras, fundiam-se ao místico, ao sobrenatural e ao horrível, ideias que permeavam as palavras do Raquítico e compunham a atmosfera densa de seus versos. Tal recorrência ao espiritual e ao macabro, vinha como herança do Simbolismo, estética literária que também influenciou Augusto. A junção da beleza cultivada pelos parnasianos ao misticismo dos simbolistas e a um vocabulário grotesco, caracterizado por termos como "escarro", renderam críticas negativas ao poeta. Mal compreendida  pelos intelectuais da literatura, a linguagem de dos Anjos, tida como suja, era uma metáfora para a decadência social do Brasil, bem como para as angústias existenciais inerentes à natureza humana. A morte prematura de dos Anjos, em 1914, impossibilitou o arquiteto misto de desfrutar do sucesso que iria permear a sua obra, reunida em um único livro deixado pelo poeta, intitulado "Eu". 


Gerada pelos vários contextos históricos desfrutados pela humanidade, a Sintaxe Poética metamorfoseava-se conforme o estado político, social e cultural atravessado pela sociedade, os quais se refletiam no poeta como ser individual. Como exemplo, tem-se as divergências filosóficas e artísticas que compunham o século XIX. De um lado, o Positivismo fazia proliferar a crença no progresso através da ciência e do antropocentrismo, elementos presentes na literatura Naturalista, por meio do Determinismo. De outro, um conjunto de poetas, conhecidos como "Poetas Malditos", sentiam-se aflitos pelo materialismo alimentado através das fumaças e barulhos de locomotivas que representavam o avanço dos ricos, minorias do cenário paradoxal da Europa da Revolução Industrial. De fato, havia um progresso, mas este era fruto da exploração de uma maioria trabalhadora, desvalorizada e miserável. Assim, figuras ilustres do pessimismo em frente ao pensamento positivista, conhecido como "Decadentismo", a exemplo do francês Charles Baudelaire, assumiam uma postura voltada para o aprofundamento das questões espirituais e emocionais em sua poética. O homem não se resumia à carne. 


Assim como Augusto dos Anjos viria a fazer mais à frente, no início do século XX, em meados do século XIX, Baudelaire trabalhou em sua obra mais conhecida, "As Flores do Mal", uma poesia marcada pelo contraste da sociedade francesa. Através de um vocabulário formal, métrico, porém recheado de temáticas que remetiam ao satanismo e ao horror, o lado negro de Paris era dissecado. A figura de Satã permeava os versos como símbolo da decadência e das revoltas humanas, todavia de sua capacidade de suportar as dificuldades a cada dia e tornar-se mais forte, como se pode observar no poema "Ao Leitor": "Do mal no travesseiro é Satã Trismegisto| Que embala lentamente a nossa alma encantada." Tal espécie de oposição aos valores fúteis do mundo progressista, mostrou-se como uma "previsão" das penúrias que os avanços tecnológicos e científicos iriam significar para a vida de milhões de famílias afetadas pelas desgraças das duas grandes Guerras Mundiais do futuro século XX. 


Mesmo que Baudelaire tenha influenciado a Arte pela Arte, seus versos não se resumem a esta. Assim como o Poeta Raquítico, o "Poeta da Modernidade", como Charles foi denominado pelos críticos, utilizou-se até mesmo do erotismo abundante em "As Flores do Mal" para expor a dualidade dos valores da matéria, mesclados aos enigmas do espírito, como é possível observar no trecho de seu poema "Hino à Beleza": "Venhas tu dos infernos, do céu, pouco importa,| Beleza! Monstro enorme, espantoso, inocente!| Se o teu olho, o sorriso, o pé, me abrem a porta| De um infinito que amo e nunca fui ciente?" Viria a literatura ao estilo baudelaireano inspirar a valorização do feio, do disforme e da crítica à burguesia, presentes em vanguardas europeias como o Expressionismo, o Dadaísmo e o Surrealismo.  


Assim como os Poetas Malditos, os artistas do mundo contemporâneo e pós-guerra teriam como alvo a necessidade de utilizar a poesia para discutir os valores sociais, íntimos e humanitários do indivíduo, como também para denunciar as desigualdades e as injustiças as quais as elites insistiam em manter ocultas. Aos poucos, no Brasil, o Modernismo viria em busca da liberdade na arquitetura poética, a poesia abandonava aos poucos as suas formalidades, para expandir-se a estratégias que fariam dela um veículo de ironia, humor e retrato da realidade brasileira. Um dos mais memoráveis protagonistas da Primeira Geração Modernista, Oswald de Andrade, "presentearia" a escola parnasiana com várias críticas em seu "Manifesto Pau-Brasil". Neste, o poeta escreveu: "Só não me inventou uma máquina de fazer versos - já havia o poeta parnasiano". Mais tarde, na metade do século XX, em meados dos anos 40, os ideais do Parnasianismo viriam a ser resgatados por autores como João Cabral de Melo Neto, conhecido como Poeta Engenheiro, pois, assim como Olavo Bilac era o ouriver que moldava, com o suor corporal e perfeccionista, o seu trabalho como poeta, João Cabral era o engenheiro que escolhia cuidadosamente a palavra correta e adequada para transmitir o necessário  por meio de seu esforço. 


Diante destas e de outras alternâncias que auxiliaram na formação da importância representada pela literatura como registro histórico, é possível concluir que não há uma fórmula adequada para se fazer poesia, visto que, ao comparar o trabalho do poeta com o do arquiteto, questões como a originalidade e o liberalismo criativo tornam-se essência na criação de projetos finais divergentes um dos outros e que englobam diversos gostos por parte dos leitores, aqueles que realmente tornam o artista memorável  e o ajudam na formação de sua identidade. Bem ou mal compreendido, o arquiteto utiliza-se das críticas e dos elogios como seus materiais de construção profissional, tudo faz parte de sua trajetória. Não apenas a literatura, mas a arte em geral, funciona como um berço de criação livre e acessível a todos, possibilitada pela Modernidade. Formal ou informal, perfeita ou imperfeita, culta ou coloquial, o poema existe e está vivo no contexto presente, disponível para resguardar as inquietações humanas: seus gostos, afligimentos, idealizações, fantasias, sonhos, contestações, calmarias, exageros e fugacidades, consoante declara o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: "A arte existe para que a realidade não nos destrua." 


Declaração para O Cavaleiro Ausente


Viver este abstrato é um derradeiro fardo! Estou cansada de cobiçar o alheio, enquanto permaneço entregue ao abandono de minhas emoções. Afaste os corvos que pousam em meus galhos. As feridas de meu vazio lhe satisfazem? Aos poucos, o escasso brilho dos meus olhos fugirá para sempre, e eu não estarei mais aqui para você me encontrar. Mas você (gosta de castanho escuro?) não gostaria de me encontrar... sou apenas uma das muitas garotinhas que partiram o próprio coração para entregar-lhe, vivendo no escuro para o seu agrado, a devanear com beijos que nunca serão meus, pois eu sei o quanto não lhe pertenço, sei que não sou o suficiente.

 Então me deixe ir. Mas não, eu não quero, porque remoer meus sentimentos malogrados e a ausência de sua reciprocidade é o que adoça a minha existência, é o perfume que sela minha podridão interna. Sabes que foste o único amado por mim, finjo ter um coração tão tenso quanto o seu, mas sabes que ele é fraco, pois ainda nina os pesadelos engendrados por ti. Continue oculto, não me olhe, não me beije, maltrate-me! Pois eu não sou perfeita.